Liberdade ou interesse?

Francisca Fernandes

Artigo de opinião

Liberdade ou interesse?

Todos os dias, os jornais internacionais falam da queda e captura de Nicolás Maduro como se fosse uma grande vitória da democracia contra uma ditadura ligada ao narcotráfico. A história é apelativa e a palavra “liberdade” funciona sempre bem. Mas, na política internacional real, os países raramente agem apenas por ideais. O que realmente move exércitos são os interesses práticos, sobretudo económicos e energéticos. Para perceber a verdadeira razão da intervenção dos Estados Unidos, é preciso deixar a política de lado e olhar para a questão do petróleo.
Existe um problema pouco falado nos EUA: apesar de serem hoje os maiores produtores de petróleo do mundo, graças ao xisto, o petróleo que extraem é leve. O problema é que muitas das grandes refinarias americanas, sobretudo no Golfo do México, foram construídas há décadas para refinar petróleo pesado. Ou seja, há uma incompatibilidade técnica: os EUA produzem um tipo de petróleo que não encaixa bem nas suas próprias refinarias. Na prática, têm petróleo a mais do tipo errado.
É aqui que entra a Venezuela. Para além de ser um país politicamente hostil aos EUA, tem as maiores reservas de petróleo pesado do mundo, exatamente o tipo que falta à indústria americana. O grande incómodo para Trump não é só Maduro continuar no poder, mas o facto de esse petróleo estar a ser enviado quase todo para a China. Ao capturar Maduro e forçar uma mudança de governo, a estratégia de Trump não se resume a “libertar” o povo venezuelano. O objetivo real é mudar o destino desse petróleo e trazê-lo de volta para os EUA.
Em resumo, a operação que ocorreu em janeiro de 2026 parece ter sido uma jogada calculada para tirar o petróleo venezuelano das mãos da China e ligá-lo às refinarias dos EUA. Reduzir custos, garantir abastecimento e fortalecer a indústria americana é o verdadeiro objetivo por trás do discurso comum. A liberdade soa bem nos discursos, mas para os mercados e para a indústria, a segurança energética fala mais alto.

Venezuela em democracia

Tiago Costa

Análise histórica

Venezuela em democracia

O estado atual da Venezuela não é novidade, temos de remeter à decada de 60 para perceber de onde viemos. Durante quarenta anos, o país foi um exemplo de estabilidade na América Latina, mas as sementes da sua queda foram plantadas na própria abundância.

O Pacto e a Ilusão do Ouro Negro

Em 1958, o Pacto de Punto Fijo estabeleceu uma democracia bipartidária sólida após anos de ditadura. Nos anos 70, o país beneficia do boom do petróleo que trouxe uma riqueza sem precedentes, mas também uma economia viciada em importações e subsídios, onde a corrupção começou a infiltrar-se nas instituições.

A Queda: Crise e Corrupção

O despertar foi brutal. O "Viernes Negro" (1983) marcou o fim da estabilidade cambial e o início de uma espiral de desvalorização e inflação. Escândalos de corrupção como o do RECADI destruíram a confiança pública nas elites políticas, revelando um sistema que privilegiava poucos enquanto a pobreza crescia.

Ruptura Social e o "Por Ahora"

O ponto de não retorno foi o Caracazo em 1989, uma revolta popular contra medidas de austeridade que terminou em repressão violenta. Neste cenário de caos, surge Hugo Chávez, militar na altura. Após um golpe falhado em 1992, o seu discurso de rendição transformou-o no rosto da mudança para uma população desesperada.

O Fim de uma Era

A década de 90 foi marcada por falências bancárias e empobrecimento extremo. Em 1998, com os partidos tradicionais em ruínas, Chávez venceu as eleições com a promessa de "refundar a República". O colapso da era de Punto Fijo não foi um acidente, mas o fim inevitável de um modelo que não soube gerir a sua riqueza nem honrar o seu pacto social.

Nicolás Maduro

Rodrigo Martins

Pessoa de relevância 

Nicolás Maduro

2026 mal tinha começado quando surgiu uma notícia que apanhou o mundo desprevenido: o Presidente da Venezuela tinha sido capturado pelas autoridades norte-americanas. Mas quem é Nicolás Maduro? Como chegou ao poder e como acabou na situação em que se encontra?

Origens, ideologia e ascensão política

Nicolás Maduro Moros nasceu em 1962, em Caracas, numa família de classe média baixa e nunca frequentou o ensino superior. Em vez disso, em 1980 viajou para Cuba para uma formação política num ambiente dominado pelo marxismo, onde a sua visão ideológica ficou moldada. De regresso à Venezuela, trabalhou como motorista de autocarros e destacou-se como líder sindical dos trabalhadores dos transportes, revelando desde cedo capacidade de mobilização e influência. Em dezembro de 1993, deu-se o encontro que mudaria a sua vida. Maduro visitou Hugo Chávez na prisão de Yare, onde o então tenente-coronel cumpria pena por um golpe de Estado falhado em 1992. O encontro foi possível graças à advogada de Chávez, Cilia Flores, que mais tarde viria a tornar-se esposa de Maduro. A partir desse momento, Maduro aproximou-se do círculo político de Chávez.
Com Chávez em ascensão política, a viragem dá-se em 1998 com a sua vitória presidencial. Nesse contexto, Maduro entra formalmente na política: em 1999 integra a Assembleia Constituinte e, no ano seguinte, a Assembleia Nacional, consolidando-se como figura do chavismo. O percurso culmina em 2013, quando assume a presidência após a morte de Chávez e vence eleições com pouco mais de 50% dos votos, já sob denúncias de irregularidades. Foi também durante essa campanha que afirmou ter visto o espírito de Chávez na forma de um pequeno pássaro que o teria abençoado.

A presidência e o desfecho

Durante a sua presidência, Maduro governou num contexto de crise permanente, com hiperinflação e escassez de bens essenciais, levando milhões de venezuelanos a emigrar. Em simultâneo, o governo endureceu o controlo interno, reprimindo protestos e detendo opositores, o que resultou em denúncias de violações de direitos humanos. Internacionalmente, Maduro tornou-se cada vez mais isolado, um isolamento que, alinhado com os interesses americanos, culminou na sua captura no início de 2026. No fim, Maduro mostrou como o poder pode transformar um trabalhador sindicalista num líder autoritário. A sua detenção levanta agora a questão central: que rumo tomará a Venezuela depois de décadas de chavismo?

Setor Petrolífero

Verónica Oliveira

Análise de setor de país

Setor petrolífero venezuelano

Nos últimos tempos, as atenções desviaram-se para um assunto em específico: a Venezuela, país latino com uma das maiores reservas de petróleo do mundo, estimado em cerca de 303 mil milhões de barris.

Dependência petrolífera e fragilidades estruturais

Ao longo dos anos, a nação venezuelana tem enfrentado vários desafios, impedindo-a de gerir e explorar eficientemente os seus recursos naturais e posteriormente afetando o seu crescimento económico e social. Assim, dada a disponibilidade de recursos petrolíferos no seu território, esse setor tornou-se a sua principal dependência, observando-se uma desindustrialização e dependência excessiva de commodities, conhecida como “doença holandesa”. Para além disto, a falta de investimento no setor acompanhada por uma má gestão pela PDVSA (empresa que explora o petróleo venezuelano), uma forte dependência estrangeira afetando, assim, o controlo cambial, a hiperinflação e a crise política, fez agravar a situação precária em que o país se encontrara.

O interesse estratégico dos Estados Unidos

Posto isto, o setor petrolífero venezuelado é visto com grande interesse pelos EUA, uma vez que a sua maior produção consiste no petróleo pesado, surgindo aqui um dos maiores benefícios para o país americano dado que as suas refinarias na Costa do Golfo (Texas e Louisiana) foram desenhadas e estruturadas especificamente para processar este tipo de petróleo.

Geopolítica, China e intervenção norte-americana

Entretanto, a procura norte-americana pelas reservas petrolíferas venezuelanas muito rentáveis assistiu a trocas comerciais entre o país latino e o mercado chinês, inimigo comercial dos EUA. Avançou, assim, um plano militar de Trump para invadir a Venezuela e capturar o seu presidente Nicolás Maduro, autocrata cuja governação era financiada pelo narcotráfico. Desde então, o governo norte-americano pretende gerir a exploração petrolífera da Venezuela, investindo em refinarias e, possivelmente, trazendo efeitos multiplicadores para o país, como o desenvolvimento de regiões periféricas, para além de Caracas, e a melhoria das condições de vida da população.

Incertezas, riscos e expectativas

Neste sentido, a intervenção militar norte-americana e o investimento dos EUA nas infraestruturas do setor petrolífero venezuelano têm sido um tópico propício a várias opiniões distintas em relação à Venezuela e às reais intenções por parte do governo de Trump. Assim, observa-se inúmeras incertezas e preocupações, como a questão ambiental, a falta de segurança e conflitos políticos, por exemplo, e também várias expectativas para ambos os países, surgindo, deste modo, um interesse mútuo.

+90% do dinheiro é digital

Lucas Lima

Curiosidade

+90% do dinheiro é digital

Existe o dinheiro físico, caracterizado por ser tangível como notas e moedas, e existe o dinheiro digital, que envolve desde dinheiro bancário (poupança, depósitos, saldo em conta corrente), a dinheiro digital estatal (versão digital da moeda oficial emitida diretamente pelo banco central) e a dinheiro digital privado (criptomoedas).
Sabias que… segundo John Deacon 92% do dinheiro no mundo é digital? Ou seja, apenas cerca de 8% do dinheiro em circulação é físico. Isto não significa que o dinheiro físico tenha perdido toda a sua relevância, apesar de representar uma percentagem reduzida continua a ser muito importante permitindo uma maior privacidade, é essencial em situações de emergência e mais benéfico em pequenas transações. Quanto ao futuro, com o desenvolvimento de moedas digitais dos bancos centrais, como o euro digital (atualmente em estudo), o dinheiro poderá tornar-se ainda mais digital, mantendo ao mesmo tempo a segurança e o controlo estatal. No fundo, o dinheiro deixou de ser apenas algo que se guarda no bolso - hoje, é sobretudo informação, confiança e tecnologia.

Como não ceder ao FOMO e investir com cabeça fria

André Abreu

Dica do mês

Como não ceder ao FOMO e investir com cabeça fria

O FOMO (fear of missing out) é um dos maiores inimigos do investidor, sobretudo de muitos de nós, jovens. Manifesta-se quando vemos outras pessoas a ganhar dinheiro rapidamente - seja com criptomoedas, ações “da moda” ou novos produtos financeiros - e sentimos que temos de entrar, mesmo sem perceber bem no que estamos a investir. Em janeiro, este fenómeno tende a intensificar-se. Surgem previsões para o “investimento do ano”, gráficos impressionantes e promessas de retornos elevados, muitas vezes amplificadas pelas redes sociais. O problema é que investir com base na pressão externa raramente acaba bem. Quando entramos apenas porque “toda a gente está a ganhar”, normalmente já chegámos tarde - e assumimos riscos que não compreendemos. Evitar o FOMO começa por aceitar uma ideia simples: não é preciso aproveitar todas as oportunidades. Um bom investidor não é aquele que entra em todos os movimentos do mercado, mas aquele que sabe dizer “não” quando algo não faz sentido para si. Antes de investir, vale a pena colocar algumas perguntas básicas: – Percebo como este ativo funciona? – Sei quais são os riscos? – Estou confortável em perder este dinheiro? Se a resposta for “não”, então provavelmente não é um bom investimento, independentemente de quantas pessoas estejam a lucrar com ele. Janeiro é um ótimo mês para reforçar hábitos saudáveis: investir de forma consistente, focar-se no longo prazo e lembrar que disciplina e paciência são muito mais eficazes do que impulsos momentâneos.

Too Big To Fail

Sahib Khaler

Sugestão cultural

Too Big To Fail

O filme dramatiza as semanas mais intensas da crise financeira de 2008, quando o Governo dos EUA e Wall Street foram forçados a enfrentar um sistema em rápido colapso e a tomar decisões que iriam afetar a economia global durante anos.

Comparação com The Big Short

Muitas pessoas associam este filme a The Big Short, outro filme bastante conhecido sobre a mesma crise financeira de 2008. Mas o foco é diferente. The Big Short dedica mais tempo a explicar como a bolha se formou e como o sistema financeiro ficou perigosamente exposto. Too Big to Fail, por outro lado, coloca-nos dentro da sala de emergência: concentra-se na tomada de decisões, na pressão política e nas negociações de alto risco que se desenrolaram quando grandes instituições como a “Lehman Brothers” começaram a cair.

Os protagonistas da resposta à crise

O filme acompanha o Secretário do Tesouro dos EUA Henry Paulson (interpretado por William Hurt), enquanto trabalha em conjunto com o Presidente da Reserva Federal, Ben S. Bernanke (interpretado por Paul Giamatti), e outros responsáveis-chave para impedir que o colapso se transformasse numa queda livre económica. Vemos Paulson reunir líderes das maiores instituições de Wall Street como JP Morgan, Goldman Sachs, Citi e outras, a tentar coordenar soluções do setor privado, ao mesmo tempo que se prepara para uma intervenção do governo caso os mercados continuem a deteriorar-se. A história passa rapidamente por momentos críticos, como a queda da Lehman Brothers, as ondas de choque que se seguem e o medo crescente de que “se isto cair, cai tudo.” O filme inclui ainda uma breve aparição do lendário investidor Warren Buffett (interpretado por Ed Asner), sublinhando o quão atentamente o mundo observava à procura de estabilidade e confiança.

O lado humano do risco sistémico

O que torna Too Big to Fail cativante é a forma clara como mostra o lado humano do risco sistémico: noites sem dormir, reuniões apressadas e escolhas em que todas as opções parecem más. Também levanta questões desconfortáveis sobre responsabilidade, risco moral e se salvar o sistema significou também proteger as mesmas instituições que contribuíram para a crise. Vemos quão frágil se torna a confiança quando o crédito congela, quão rapidamente o pânico se espalha e como os decisores têm de equilibrar economia, política e reação pública em tempo real.

Avaliação final

Na minha opinião, é um bom filme porque capta a urgência e a gravidade do momento sem o transformar numa simples história de herói vs vilão. Dá uma visão real de como a crise foi gerida ao mais alto nível, de como os grandes bancos reagiram sob pressão e de porque foram tomadas certas decisões, mesmo quando eram profundamente impopulares. Se gostou de The Big Short e quer uma visão mais profunda do que aconteceu “por detrás das portas” durante a própria crise, Too Big to Fail é uma continuação forte e uma experiência de aprendizagem significativa.

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