Em 2000, a China era responsável por apenas 3,6% do PIB mundial, pouco mais que uma economia emergente com enorme potencial. Vinte e cinco anos depois, com um PIB de 18,8 biliões de dólares, tornando-se na segunda maior economia global, respondendo por cerca de 17% da produção mundial.
Este percurso foi impulsionado pelas reformas de Deng Xiaoping nos anos de 1980 e pela adesão à OMC em 2001, que integrou o país nas cadeias de valor globais. Durante duas décadas a economia chinesa cresceu a taxas superiores a 8% ao ano
Figura 1 — PIB da China (100 milhões de yuan) e taxa de crescimento anual, 2006–2025. Fonte: NBS China.
É visível ainda que entre 2007 e 2008, período de severa crise e recessão em grandes economias mundiais, economias emergentes como a china emergiram, verificando taxas de crescimento superiores a 10% anuais, que sustentaram a procura global durante este período.
Propulsores do Crescimento Chinês
O modelo assenta em três fases históricas. Na primeira, o investimento em infraestruturas e a manufactura de baixo custo tornaram a China na "fábrica do mundo". Milh��������es de pessoas deslocaram-se para grandes urbanizações, onde a indústria e serviços urbanos era mais rentáveis e produtivos face ao setor agrícola. A quota chinesa nas exportações globais passou de 5% em 2000 para 15% em 2024, atingindo 3,5 biliões de dólares
Na segunda, o país escalou para produtos de maior valor: eletrônica, equipamento industrial e energia solar. A China representa hoje cerca de 28% da produção manufatureira global.
Na terceira e a mais atual, a aposta é na inovação tecnológica.
Na indústria automóvel, a BYD ultrapassou a Tesla em vendas globais de veículos eléctricos em 2023, exportando para mais de 70 países. A China é hoje o maior produtor mundial de baterias de lítio e paineis solares. Em inteligência artificial, empresas como Baidu, Alibaba e a emergente DeepSeek desafiam diretamente a supremacia americana, com modelos que rivalizam com os melhores ocidentais a uma fracção do custo de desenvolvimento.
Vulnerabilidades Internas
Comecemos por falar sobre risco financeiro associado à dívida. A dívida pública situou-se em 88% do PIB em 2024, com o FMI a projectar uma subida para 111% até 2029. [8] Mas o problema é mais vasto do que os números governamentais sugerem: governos locais, empresas estatais e promotores imobiliários acumularam passivos significativos, muitos fora do balanço oficial. O colapso da Evergrande (com uma dívida superior a 300 mil milhões de dólares) é o símbolo mais visível de uma dependência sistémica do crédito para financiar investimento, com frequência de baixa produtividade.
Intimamente ligada à dívida está a crise imobiliária, cujo peso se estima em 25–30% do PIB quando se incluem os sectores associados. O excesso de construção gerou as chamadas "ghost cities" (urbanizações com elevados índices de desocupação) e criou uma dependência fiscal dos governos locais das receitas da venda de terrenos que se revelou insustentável.
No plano estrutural, a política do filho único (1979–2015), combinada com a queda da taxa de natalidade e o aumento da esperança de vida, está a inverter o dividendo demográfico que sustentou décadas de crescimento. A população activa contrai, a pressão sobre o sistema de pensões aumenta e a população total começou mesmo a diminuir. O FMI estima que estes factores reduzam o crescimento potencial para 3,8% em 2025–30 e para 2,8% em 2031–40.
O baixo consumo interno, resultado de uma fraca rede de segurança social, as ineficiências das empresas estatais (SOEs), que operam com incentivos políticos em vez de econômicos, desviam recursos de empresas privadas mais eficientes e travam a produtividade agregada e a desigualdade regional, zonas costeiras como Shanghai ou Shenzhen muito mais ricas do que o interior, são outros fatores limitadores que no longo prazo podem dificultar o crescimento chines e até mesmo prejudicar
TENSÕES EXTERNAS
O avanço tecnológico e a expansão económica da China despertam preocupações crescentes com o Ocidente. Os EUA começaram com restrições à exportação de semicondutores e chips de IA, com o propósito de estimular e dificultar o acesso chinês à tecnologia fundamental para estes mesmos e desenvolver sistemas militares. A Europa, por outro lado, como forma de resposta às práticas de dumping no sector automóvel, aplicou direitos aduaneiros sobre veículos elétricos chineses que chegam a 35%.
PROJEÇÕES E EXPECTATIVAS FUTURAS
O FMI, em abril 2025, projeta que o PIB chinês possa atingir os 23,1 biliões de dólares em 2030 ( valor que se encontra abaixo face aos 27,5 biliões projectados em 2023, explicada pela recuperação pós-COVID mais lenta e pela crise imobiliária.
A médio prazo, é projetado ainda um crescimento possivel de 3,8% entre 2025 e 2030 e de 2,8% entre 2031 e 2040. O Lowy Institute é mais pessimista: projeta um abrandamento para cerca de 3% em 2030 e 2% em 2040,
O objetivo de Pequim é duplicar o PIB per capita até 2035 face a 2020 — uma meta ambiciosa, sendo preciso um crescimento médio de cerca de 4,7% ao ano.
O tema principal para a economia chinesa já não se trata da ascenção, mas sim na sustentabilidade. A capacidade de Pequim gerir simultaneamente a transição demográfica, a pressão financeira, as restrições tecnológicas ocidentais e as ineficiências institucionais determinará se a China consolida a liderança global ou estabiliza como uma potência de primeiro nível sem capacidade de domínio inequívoco.
Dica do mês
Prepara-te já para o futuro!
Por Francisca Fernandes
Prepara-te já para o futuro!
Começar a gerir dinheiro ainda durante os anos de estudo pode parecer pouco relevante quando o rendimento é limitado ou inexistente. No entanto, é precisamente nesta fase que se constroem os hábitos que vão influenciar toda a vida financeira. Pequenas decisões, como poupar regularmente, compreender como funcionam os investimentos ou evitar dívidas desnecessárias, podem ter um impacto muito maior no futuro do que muitos imaginam.
1.Poupar, mesmo que seja pouco
Antes de investir, o mais importante é criar o hábito.
Mesmo valores pequenos (10€ ou 20€ por mês) já treinam a disciplina financeira, o planeamento e a consciência dos gastos.
Exemplo: criar uma tabela onde insiras todas as tuas despesas por categorias. Assim, torna-se muito mais fácil perceber para onde está a ir o dinheiro e identificar onde é possível poupar.
2.Começar a investir cedo
Os estudantes têm uma vantagem que nenhum outro investidor pode recuperar: TEMPO. Graças ao efeito dos juros compostos, quem começa a investir aos 20 anos precisa de investir muito menos dinheiro do que quem começa aos 35 anos para chegar ao mesmo resultado.
Mesmo com valores pequenos, investir cedo ajuda não só a aumentar potencialmente o capital ao longo do tempo, mas também a ganhar experiência e confiança no funcionamento dos mercados.
Exemplo: Para ter 1milhão aos 65 anos
20 anos -> 135€ por mês -> 45 anos investindo -> 72,900€ investidos no total
30 anos -> 340€ por mês -> 35anos investindo -> 140.000€ investidos no total
40 anos -> 892€ por mês -> 25 anos investindo -> 267.000€ investidos no total
50 anos -> 2643€ por mês -> 15 anos investindo -> 475.000€ investidos no total
(assumindo rendimento médio de 9%)
3.Literacia financeira
Saber o básico sobre poupança, risco, inflação e investimento é um dos passos mais importantes, pois permite tomar decisões mais informadas e evitar erros comuns. Hoje em dia, existem muitas ferramentas para aprender desde o 0 ao 100. Desde IA, a livros, filmes, investidores reais, jornais, revistas, podcasts, etc.
Investir em conhecimento financeiro é, muitas vezes, um dos investimentos com maior retorno a longo prazo.
Dica: consulta a secção “sugestão cultural” da Revista MIA.
4.Evitar dívidas desnecessárias
Muitos jovens começam a vida adulta já com dívidas de consumo (roupas parceladas, cartões de crédito mais utilizados, créditos para tecnologia, etc), podem rapidamente criar encargos difíceis de gerir.
Evitar estas situações desde cedo permite começar a vida adulta com maior liberdade financeira e mais capacidade para poupar e investir.
Curiosidade
Quais as contas que rendem mais?
Por Rodrigo Martins
Quais as contas que rendem mais?
No final de cada trimestre, os investidores fazem sempre a mesma coisa: olham para os números, leem as previsões, e tentam perceber se é hora de entrar, sair ou esperar. É um ritual quase universal, porém considerado por muitos completamente inútil...
Estudos dizem que, numa década de investimento, os melhores retornos concentram-se frequentemente em apenas 10 a 15 dias que chegam sem aviso, e que ninguém consegue prever.
A Fidelity, uma das maiores gestoras de investimentos do mundo, decidiu um dia perceber quais os clientes com melhor desempenho na sua carteira e a resposta foi, no mínimo, desconcertante: eram pessoas que tinham falecido, ou que simplesmente tinham esquecido que tinham uma conta.
Nenhuma decisão. Nenhum timing. Nenhum momento perfeito. Só tempo.
É uma curiosidade que diz aquilo que décadas de estudos financeiros confirmam: a maior ameaça ao nosso investimento costumamos ser nós próprios.
Fontes e Referências
Fidelity Investments
Artigo de opinião
A IA está a ajudar os trabalhadores, ou a substituí-los silenciosamente?
Por Sahib Khaler
A IA está a ajudar os trabalhadores, ou a substituí-los silenciosamente?
A inteligência artificial tornou-se uma das tecnologias mais discutidas no mundo; independentemente da idade ou da área de trabalho, toda a gente fala sobre IA e, especialmente entre startups e fundadores de startups, sente-se como o início de uma nova era, quase como uma versão moderna da bolha dot-com. Ainda não é claro se é ou não a nova bolha dot-com, mas o que sabemos é que toda a gente anda atrás desta tecnologia.
Embora a IA pareça nova para o público em geral, o sonho por trás dela é muito mais antigo. As primeiras evidências começaram na Antiguidade, com mitos, histórias e rumores de seres artificiais dotados de inteligência ou consciência por mestres artesãos, mas o primeiro desenvolvimento do computador digital programável começou na década de 1940, uma máquina assente em raciocínio matemático abstrato. Este computador inspirou os cientistas a começarem a discutir a possibilidade de construir um cérebro eletrónico.
No entanto, a IA só passou a fazer parte da vida quotidiana quando as ferramentas de IA generativa se tornaram amplamente disponíveis ao público. No início, a maioria das pessoas utilizava estas ferramentas de forma simples: para fazer perguntas, explicar conceitos, gerar ideias, redigir texto, reescrever frases, resumir informação e criar imagens. Nessa fase inicial, a IA era vista sobretudo como uma assistente útil. Ajudava as pessoas a poupar tempo, mas não parecia uma ameaça direta aos empregos.
Mas, em 2026, a perceção pública começou a mudar. À medida que as ferramentas de IA se tornam mais capazes, muitos trabalhadores começam a perceber que a IA não está apenas a ajudar em tarefas, mas também a começar a executar algumas delas, de uma forma mais rápida e, em alguns casos, mais eficiente, através de capacidades incorporadas de verificação e auditoria. Isto é especialmente visível em áreas como programação, suporte digital, trabalho com dados e finanças. No final de 2025, ferramentas como Claude Code e Codex já podiam ajudar os utilizadores a criar uma página web ou um website, se fossem corretamente instruídas. Em apenas alguns meses, estas ferramentas melhoraram drasticamente. Agora, os utilizadores conseguem construir websites totalmente funcionais, programas e aplicações web num único dia com a ajuda da IA. Isto não significa que profissões inteiras já tenham desaparecido, mas mostra que a fronteira entre assistência e substituição está a tornar-se menos clara.
É aqui que o debate atual se torna importante. De um lado, fundadores e empresas veem a IA como uma revolução. Veem custos mais baixos, maior rapidez na produção e a capacidade de criar produtos com equipas mais pequenas. Do outro lado, trabalhadores, estudantes e jovens licenciados veem uma possibilidade diferente: se a IA já consegue escrever, analisar, resumir, calcular e gerar código, então o que acontecerá aos empregos de entrada no mercado que, antes, ajudavam as pessoas a iniciar as suas carreiras? É por isso que a IA gera, ao mesmo tempo, otimismo e ansiedade.
O relatório da Anthropic reflete muito bem esta incerteza. Afirma que a rápida difusão da IA está a gerar uma vaga de investigação sobre os mercados de trabalho, mas também avisa que os efeitos podem não ser imediatamente óbvios e que os investigadores devem manter-se humildes ao interpretar as primeiras evidências. O relatório chega mesmo a defender que o impacto da IA poderá parecer menos um choque súbito e mais mudanças mais lentas, semelhantes às da internet ou aos choques do comércio, em que os efeitos completos no mercado de trabalho demoram tempo a aparecer.
A comparação da Anthropic entre capacidade teórica e exposição observada mostra uma grande diferença, especialmente em categorias como Informática & Matemática, Negócios & Finanças, e Escritório & Administração. Por exemplo, o relatório observa que os LLMs poderiam, teoricamente, afetar a maioria das tarefas em profissões de Informática & Matemática, mas a cobertura observada atual nessa categoria é muito mais baixa.
Ao mesmo tempo, o relatório também nos mostra porque é que as pessoas estão preocupadas. Conclui que algumas das profissões mais expostas incluem programadores informáticos, representantes de apoio ao cliente, operadores de introdução de dados e analistas financeiros. Também conclui que as profissões com maior exposição observada deverão crescer menos até 2034. Isso não significa que a IA já esteja a causar destruição de empregos em grande escala, mas sugere que a pressão está a aumentar com mais força no trabalho de colarinho branco, baseado em computador e em tarefas cognitivas rotineiras.
Na minha opinião, não se trata simplesmente de uma história de progresso, nem simplesmente de uma história de destruição. É ambas as coisas. A IA está a ajudar os trabalhadores ao tornar muitas tarefas mais rápidas e mais fáceis, mas também está a mudar silenciosamente aquilo de que os empregadores precisam da parte dos trabalhadores, especialmente dos mais jovens e menos experientes. Tarefas que antes exigiam pessoal júnior podem agora, muitas vezes, ser concluídas muito mais depressa com a ajuda da IA; por isso, poderá parecer que existem menos funções júnior disponíveis, à medida que a concorrência por essas funções aumenta.
Para concluir, a IA é entusiasmante para o mundo da tecnologia, das startups e da inovação, e é compreensível que tantas pessoas estejam entusiasmadas com ela. Mas esse entusiasmo não nos deve levar a ignorar a incerteza que cresce no mercado de trabalho. A IA continua hoje a ser mais assistente do que substituição total, mas os primeiros sinais de alerta já estão presentes. Por essa razão, acredito que os trabalhadores não devem rejeitar a IA, mas também não a devem subestimar. A resposta mais inteligente é adaptar-se, desenvolver competências à sua volta e compreender que o futuro do trabalho poderá recompensar aqueles que conseguem trabalhar com a IA melhor do que aqueles que tentam competir contra ela.
Curiosidade
Partida de Xadrez
Por Verónica Oliveira
Partida de Xadrez
O Jornal de Negócios possui um dos podcasts mais interessantes da atualidade em Portugal - o Partida de Xadrez. Este projeto conta com a participação dos comentadores António Ramalho e Gonçalo Moura Martins e de Maria João Babo, assumindo um cargo de moderadora.
Assim, Partida de Xadrez surge como um debate relativamente a assuntos económicos dos dias de hoje, observando-se, através do nome do podcast, uma metáfora para um tabuleiro económico onde, em cada episódio, se pretende antecipar as jogadas relativamente ao tema em destaque.
Neste sentido, enaltecendo uma perspectiva informativa e uma análise tanto estratégica como analítica, o Partida de Xadrez torna-se uma sugestão ideal para alguém que gostaria de entender melhor os diferentes e relevantes assuntos atuais, dando-lhe a oportunidade de aperfeiçoar o seu espírito crítico sobre os temas selecionados para cada episódio.