Rodrigo Martins

TAP - um trunfo estratégico amarrado à política partidária

As decisões sobre a TAP têm sido, há décadas, reféns de motivações políticas em detrimento de uma lógica empresarial. A renacionalização com governos de esquerda e a reprivatização sempre que a direita sobe ao poder ilustram bem este ciclo vicioso. Mas o verdadeiro problema da TAP não reside no facto de ser pública ou privada: está na má gestão e numa cultura interna marcada por conflitos laborais e episódios lamentáveis como indemnizações milionárias e despedimentos por WhatsApp, que alimentam a narrativa política e transformam a companhia numa arma de arremesso político.

Ainda assim, Portugal não se pode dar ao luxo de perder uma companhia aérea de bandeira, isto porque a posição periférica do país na Europa, e a dependência do setor do turismo, tornam a TAP essencial para a economia além de assegurar ligações, por exemplo entre os PALOP e ilhas. Entregar esta responsabilidade inteiramente ao setor privado seria negligenciar toda essa dimensão estratégica. Mais do que a sua importância na dimensão estratégica, a TAP acarreta uma importância fundamental na economia: é um empregador direto e indireto de milhares de pessoas e uma fonte de receitas fiscais e contribuições sociais. Perder a TAP seria abrir um vazio difícil de colmatar, daí a importância das reestruturações, nomeadamente a de 2020, numa altura que se viu o colapso das operações de todas as companhias aéreas. Se algo ficou claro nas últimas décadas foi que nem a privatização garantiu eficiência, nem a nacionalização assegurou estabilidade. Se Portugal quer uma TAP forte e estratégica, está na hora de cortar o cordão umbilical com a política partidária, e dos cargos deixarem de ser escolhidos por afiliação partidária mas sim por mérito e qualidade reconhecida no setor.

Neste contexto, a mais recente privatização de 49,9% do capital, pode ser uma lufada de ar fresco na companhia e o início de uma gestão mais profissionalizada, mas só o tempo pode mostrar as verdadeiras intenções desta privatização. Se for o ponto de partida para uma privatização da maioria do capital, arriscamo-nos a perder o trunfo estratégico que a TAP é para o país.

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