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Na madrugada de 28 de março de 2025, um sismo de magnitude 7,7 sacudiu violentamente o centro-norte de Myanmar, mergulhando o país numa crise de proporções catastróficas. O epicentro localizou-se entre as regiões de Sagaing e Mandalay, mas os efeitos sentiram-se a centenas de quilómetros, alcançando até mesmo a Índia, China e Tailândia. O rasto de destruição causado pelo tremor foi avassalador, tanto a nível físico como económico. As autoridades confirmaram mais de 5 400 mortos e cerca de 11 400 feridos, embora os números continuem a aumentar. Foram registadas dezenas de réplicas sísmicas, a mais intensa das quais com magnitude 6,4, mantendo a população em estado de alerta e impedindo qualquer sensação de segurança.
Mais de 2 600 edifícios ruíram, incluindo habitações, escolas, igrejas, hospitais e edifícios administrativos. O aeroporto internacional de Naipidau, capital do país, foi encerrado após o colapso da torre de controlo, limitando severamente a chegada de ajuda humanitária e mercadorias. A paralisação de infraestruturas críticas revelou rapidamente o outro epicentro do desastre: a economia mianmarense.
Myanmar, já profundamente fragilizado por uma crise político-social contínua desde o golpe militar de 2021, enfrenta agora uma paralisia económica generalizada. A inflação, que já ultrapassava os 25% antes do sismo, aliada a uma estrutura económica fortemente dependente do setor primário, torna o país particularmente vulnerável ao impacto de catástrofes naturais. A agricultura representa cerca de 22,72% do Produto Interno Bruto, segundo dados de 2023 da Trading Economics, e emprega mais de 60% da população ativa, com especial destaque para o cultivo do arroz, principal produto agrícola nacional. No entanto, vastas áreas de cultivo ficaram destruídas devido ao fenómeno de liquefação dos solos, em que o terreno perde a sua consistência sólida e transforma-se numa massa lamacenta. Sistemas de irrigação foram arrasados, colheitas afundadas, gado morreu soterrado, e maquinaria agrícola ficou irrecuperável. Estas perdas comprometem não só a segurança alimentar do país, onde cerca de 25% da população já enfrenta insegurança alimentar, como também agravam a pobreza rural que atinge quase metade dos cidadãos mianmarenses.
Para além da agricultura, toda a infraestrutura económica do país foi severamente danificada. Estradas, pontes e redes de distribuição de bens colapsaram, impedindo o transporte de alimentos, medicamentos e outros produtos essenciais. Hospitais, escolas e mercados estão encerrados ou destruídos. Cidades inteiras permanecem isoladas, e milhares de pequenas empresas, que constituem a base da economia informal do país, viram-se forçadas a suspender operações. A maioria dessas empresas não possui qualquer forma de seguro ou acesso a crédito para reconstrução. O encerramento do principal aeroporto também paralisou rotas comerciais e atrasou a chegada de ajuda internacional. As consequências económicas do terramoto são profundamente alarmantes. De acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), as perdas poderão ultrapassar os 100 mil milhões de dólares, superando assim todo o Produto Interno Bruto de Myanmar, que foi estimado em 66,76 mil milhões de dólares em 2023. Isto significa que o país poderá ter perdido num só dia o equivalente a tudo aquilo que produz num ano inteiro, um impacto sem precedentes na sua história recente.
Perante o colapso, a junta militar decretou estado de emergência em seis regiões e apelou à ajuda internacional — um gesto raro. A resposta global começou a chegar, com as Nações Unidas a alocarem cinco milhões de dólares em apoio humanitário imediato, enquanto a União Europeia comprometeu-se com 2,5 milhões de euros, com promessas de aumentos futuros concretizados no valor de 5 milhões de euros, totalizando 7,5 milhões de euros. Países como Índia, Rússia, Malásia e Singapura enviaram equipas de resgate, medicamentos e bens essenciais. No entanto, a entrega de ajuda enfrenta sérios obstáculos, incluindo bloqueios militares, zonas de conflito ativo e a ausência de uma logística nacional funcional. O futuro de Myanmar permanece profundamente incerto. A reconstrução exigirá não apenas fundos substanciais, mas também estabilidade política, reformas institucionais e apoio técnico internacional continuado. Será necessário investir em infraestruturas resilientes, diversificar a base económica e estabelecer planos de resposta eficazes a desastres naturais. Sem esse esforço coordenado, este terramoto corre o risco de marcar não apenas uma tragédia humanitária, mas também um ponto de rutura irreversível para a economia do país.