A soberania taiwanesa voltou a ser tema de debate mundial pouco depois de Vladimir Putin iniciar uma invasão à Ucrânia. Há quem diga que o presidente russo deu o “mote” a países como a China para se aventurarem em projetos imperialistas de re/construção de impérios passados. A segurança de Taiwan pode, hoje, estar dependente dos chips produzidos no seu próprio território. Devemos ter em conta a importância geopolítica que esta província representa no mundo. É em Taiwan que está sediado o maior centro de fabricação de Chips do mundo, 90% do fornecimento dos chips mais avançados a nível mundial vem de um único local, Taiwan. Pode passar despercebida a importância ou até a existência da empresa Taiwan Semiconductor Manufacturing (TMSC), algo que é, realmente, negligenciar o debate deste assunto. A TSMC é responsável pelo fornecimento de Chips a empresas como a Apple, a Nvidia ou até a Amazon reforçando a excelente relação comercial que Taiwan estabelece com os Estados Unidos da América - facto de extrema relevância para este assunto.
Começo por abordar a tecnologia presente em Taiwan, mas não devendo cair no erro de pensar que os interesses chineses por Taiwan advêm, exclusivamente, da alta tecnologia sediada na província. O Problema Taiwanês é muito antigo e devemos remeter ao período da Guerra Civil Chinesa onde a China se dividiu numa guerra importante para definir aquilo que foi o futuro comunista da nação. Os derrotados nacionalistas, já com o falhanço sentenciado decidiram refugiar-se na Ilha de Taiwan que até ao momento foi das únicas a sobreviver às aspirações chinesas de reconstruir a sua nação. É importante ter em conta que a China sempre reconheceu Taiwan como parte do território e nação chinesa encarando este assunto como uma afronta à integridade da nação e também com uma elevada necessidade de resolução do “problema”, que passaria por uma reconquista do território.
Quanto à importância económica da província a indústria de fabricação de Chips em Taiwan merece a nossa atenção. A tecnologia mais disruptiva do mundo está, neste momento, dependente de Taiwan e as duas grandes potências olham para Taiwan como um local estratégico para o seu futuro. Por um lado, temos os EUA a investir largas quantidades de dinheiro na TSMC para que comecem a basear o seu processo produtivo em território americano. Por outro lado, temos uma China afetada pelas restrições impostas pelos governos americanos na exportação de chips para o país asiático, que segue com a ambição de unificar o seu antigo império - agora com importância estratégica de extrema relevância. Será certamente objeto de estudo aquilo que um setor económico de um país com menos de metade do tamanho de Portugal conseguiu fazer em questão de inovação tecnológica e as consequências desse feito na sua soberania. Fica a pergunta: Estará no fabrico de chips em solo taiwanês a soberania de uma nação?
Como já foi possível perceber esta empresa representa algo inqualificável para Taiwan: a sua liberdade. A empresa não é apenas a espinha dorsal da economia taiwanesa, mas também um pilar estratégico no cenário geopolítico global. Essa importância reflete-se na sua cotação em bolsa, onde a volatilidade acompanha de perto a crescente instabilidade política. A oscilação das suas ações tornou-se ainda mais evidente com a chegada ao poder de uma administração norte-americana cujas diretrizes de política externa são menos favoráveis à sobrevivência de nações vulneráveis. Ainda assim, a empresa, à data de hoje, negoceia a preços 24% mais altos do que há um ano, mesmo depois de uma queda abrupta (-15%) nos últimos meses. Muitos investidores seguem confiantes neste negócio não obstante a tensão geopolítica em que ele se envolve. Muitas características podem ser destacadas como cruciais para este otimismo em relação à empresa: Quotas de mercado absolutamente dominantes (Monopólio); -Procura pelos seus produtos em crescente; Apoios por parte dos EUA para afastar o processo produtivo da China (fábricas no Arizona); A empresa encontra-se à data da elaboração deste artigo cotada a 169 dólares e a um rácio preço/lucro de 20,86; Fica a pergunta: Será esta gigante tecnológica um bom investimento?
É importante denotar que, tradicionalmente, o maior parceiro comercial de Taiwan é a China, mas esta tendência vinha em trajetória decrescente já que os Estados Unidos da América aprofundaram as suas relações comerciais com o país nos últimos tempos. É, aliás, evidente nos dados da tabela 1 que as exportações de Taiwan nos últimos anos representam um distanciamento ao mercado chinês que é suprimido com o aprofundar das relações comerciais com os Estados Unidos da América. Como nem tudo é um mar de rosas, a recente mudança de inquilino na sala oval inundou o mundo cheio de incertezas. Focando nas certezas, é já certo que sobre Taiwan incidirá, de forma inédita, uma política tarifária que se quantifica em 32%. Este pacote que se estende à maior parte do globo (com valores que diferem de país para país) advém da interpretação por parte de Trump de que os parceiros comerciais dos EUA se estão a aproveitar do povo americano. Trump recorrentemente usa os dados da balança comercial para justificar a sua narrativa. Vamos aos factos: Neste caso em específico (Taiwan) é verdade que os EUA apresentam um défice comercial, o que significa essencialmente que as suas importações excedem o valor das exportações para o país em questão, mas isso não deve ser interpretado de forma isolada. Como falado anteriormente Taiwan possui a tecnologia mais importante do momento e isso reflete-se de forma muito significativa no valor das importações americanas que se acentuam devido à necessidade das empresas americanas de chips para os seus produtos. Esta relação comercial foi até hoje um sucesso e aliás representou um enorme avanço tecnológico no mundo, que se deveu ao caminho percorrido, de mãos dadas, entre as gigantes tecnológicas americanas e as, altamente capacitadas, indústrias taiwanesas.