Há 80 anos, em 1945, era criada a empresa de aviação que dá ainda o que falar nos dias de hoje. Por ordem do Serviço do Secretariado da Aeronáutica Civil, foi criada a Secção de Transportes Aéreos, dando origem à TAP – Transportes Aéreos Portugueses, sob a liderança do então diretor do Secretariado, Humberto Delgado, um militar português da Força Aérea e uma figura importante na luta contra o salazarismo vivido na altura, que, em 2016, deu nome ao aeroporto de Lisboa, o Aeroporto Humberto Delgado.
A TAP foi uma empresa privada até 1975, tendo sido nacionalizada pelo governo provisório logo após o 25 de abril, e passou a ser integralmente controlada pelo Estado. O serviço entregue pela TAP já dava o que falar desde os anos 70, um sonho de requinte era o que lhe chamavam: as refeições eram servidas em loiça de porcelana sempre com salmão, na primeira classe, eram servidos manjares de caviar e lagosta, no final os passageiros fumavam um charuto oferecido pela companhia. Contudo, nem tudo era um mar de rosas, e já nessa altura haviam relatos de muitas avarias e algumas greves, tendo uma das principais se dado em 1973, em que milhares de trabalhadores fizeram greve paralisando completamente a manutenção, provocando atrasos nos voos. Desde a sua nacionalização em 1975, a TAP apresentou sucessivos prejuízos cobertos na totalidade pelo Estado, ano após ano, excetuando os anos de 1977 e 1978 em que a companhia gerou pouco mais de 1 Milhão de euros de lucro
Contudo, foi apenas em 1991 que se falou pela primeira vez em privatização, durante o governo de Aníbal Cavaco Silva, que deu o primeiro passo tornando a TAP numa Sociedade Anónima, o que o permitiria privatizar a empresa. A primeira injeção de capital na TAP deu-se de 1994 até 1997, no então governo de Cavaco Silva devido à “situação financeira precária” da empresa, palavras do primeiro-ministro da altura. Esta primeira injeção surgiu no âmbito do Plano Estratégico e de Saneamento Económico-Financeiro, um projeto de reestruturação para a TAP no valor de cerca de 900 milhões de euros, a preços de 2020. Apesar da vontade do governo de Aníbal Cavaco Silva, é apenas durante o governo de António Guterres, em 1998, que é dado o pontapé de saída para o começo da privatização com a entrada da SAir Group, holding que controlava a SwissAir, na equação. Após um conselho de ministros, António Guterres anunciava a venda de 34% da TAP à SAir Group, na altura por 156 Milhões de Euros. Já se esfregavam as mãos dentro da companhia e o presidente da TAP na altura, Norberto Pilar, admitia que “com este negócio a viabilidade da TAP está assegurada”. Contudo, em 2001, a SwissAir por dificuldades de liquidez congelou todas as aquisições e retirou-se definitivamente do acordo feito com o Governo. O Governo ainda tentou processar o grupo, mas sem sucesso, não tendo recebido nenhuma indeminização até aos dias de hoje.
Seguiram-se os anos de 2002 a 2008 onde a TAP passou por uma modernização e reestruturações profundas. Em 2005 entra na Star Alliance, a principal aliança global de redes aéreas, o que permitiu modernizar bastante as operações. Pela primeira vez em desde os anos 90, a TAP dá lucro, em 2003, fechando o ano com um lucro de 19,7 milhões de euros. Seguiram-se lucros em 2004 de 8,6 milhões de euros e em 2006 e 2007 de 7,3 milhões de euros e 32,8 milhões de euros, respetivamente, tendo o de 2007 sido um recorde histórico. Este lucro apenas foi interrompido em 2005 com um prejuízo de 9,9 milhões de euros. Contudo em 2008, houve um prejuízo significativo de 288 milhões de euros, devido ao choque no preço do combustível. Ainda assim, entre muitos prejuízos e lucros tímidos, em meados dos anos 2000 e início de 2010, a TAP viveu o seu período mais reconhecido em termos de serviço, somando distinções internacionais e nacionais que atestavam a qualidade da operação e do atendimento. Recebeu prémios como “Melhor companhia aérea para África”, entre outros, de 2006 a 2010. Em 2011 a TAP era reconhecida como a 4.ª companhia aérea mais segura do mundo e a mais segura da Europa Ocidental.
Entrávamos então nos duros anos da Troika e, em 2011, a privatização é aprovada, no entanto sem garantias viáveis. É em 2015 que a TAP é finalmente privatizada, sob o Governo de Pedro Passos Coelho, passados cerca de 15 anos desde a primeira tentativa. O consórcio Atlantic Gateway adquiriu 61% da TAP. No entanto, mesmo privatizada, seguiram-se prejuízos de 2014 até 2016, tendo esta onda de prejuízo sido quebrada em 2017, com um lucro de 21,2 milhões de euros, ano em que, já sob Governo de António Costa, este começou a inversão parcial da privatização de 2015. Foi então em 2020, face ao colapso quase total da operação provocado pela pandemia, a TAP é renacionalizada, sob o Governo de António Costa. O Estado passou a deter 72,5 % do capital da TAP, num aporte de 55 milhões de euros para adquirir a participação de David Neeleman, empresário que detinha uma parte do capital da TAP. Esta operação foi acompanhada de um empréstimo de 1 200 milhões de euros, autorizado pela Comissão Europeia ao abrigo das regras de auxílios de emergência, com exigência de apresentação de um plano de reestruturação em seis meses para assegurar a viabilidade futura da transportadora. Apesar do forte apoio estatal nesta época, era apenas em 2025 que se esperava que a empresa desse lucro, no entanto, o primeiro lucro veio antes do que se esperava, em 2022, no valor de 65,6 milhões de euros, tendo continuamente fechado as contas no verde até 2024.
Mais recentemente, sob o atual Governo de Luís Montenegro, com o objetivo de recuperar o dinheiro injetado na empresa, de modernizá-la e criar uma visão estratégica para a mesma, foi anunciado a intenção de venda de 49,9% do capital social da empresa, iniciando assim o processo de reprivatização. Ainda não existem acordos com nenhuma empresa, mas já existem interessados na compra. Será que é desta que a empresa se torna sustentável? Ou é mais um tiro no escuro movido por motivos ideológicos? Basta-nos esperar para mais atualizações de uma história que parece não ter fim.